breviário sobre sexualidade e cinema
Rafael Hansen Quinsani
Não é de hoje que a
História “só pensa naquilo”. Sexualidade, erotismo e seus elementos afloram nas
sociedades desde os tempos imemoriais, marcando a História de diversas formas. Diferentemente
do resto dos animais o ser humano pode pensar e praticar sexo o tempo todo,
além da finalidade de reprodução e das regras biológicas do cio. Preenchendo o
cotidiano e o imaginário, o sexo não poderia ficar de fora do nascimento da sétima
arte. Do ato voyeurístico perante ao que é apresentado na tela a vivência da
proximidade consentida das experiências do escurinho da sala de cinema, a
sexualidade permeia os meandros da experiência fílmica. Como lembra Fredric Jameson:
“O visual é essencialmente pornográfico, isto é, sua finalidade é a fascinação
irracional, o arrebatamento. [...] Filmes pornográficos são a potencialização
de uma característica comum a todos os filmes, que nos convidam a contemplar o
mundo como se fosse um corpo nu”.
Entretanto, a
compreensão do conceito de nudez depende do contexto. A exposição do corpo nu
pode ser objeto de poder através da sexualidade. E então, cabe a pergunta: qual
o limite da exposição? No cinema ela oscilou entre diferentes significações ao
longo do tempo. Atribui-se o primeiro nu frontal a película Êxtase, realizada em 1933. A obra narra
as desventuras de uma mulher recém casada que se depara com a infelicidade junto
ao marido. Toda estruturada pela música, quase um “filme-sinfonia”, este inovou
ao detalhar o orgasmo feminino representado com sensualidade por Hedy Lamarr
(então com 16 anos). O close nos lábios semicerrados, na mordida dos dedos e
nos olhos brilhando expressa a marca do filme: a intensidade que o sexo e o
erotismo podem compor o cotidiano. Contudo, a nudez presente em Êxtase já não era inédita. Em 1897 Le tub
apresentava o banho de uma mulher. Quando o cinema se consagrava no auge das vaudevilles diversos filmes retratando
nudez e cenas sexuais eram exibidos. Da exposição do corpo através de
insinuações, fendas, roupas, cabelos (e lembrando Roland Barthes: “O lugar mais
erótico do corpo não é lá onde o vestuário se entreabre?”) até a exposição
explícita das genitálias e suas “desenvolturas” muita coisa aconteceu.

Ainda na fase do cinema
mudo, a representação misógina das Vamps,
verdadeiras devoradoras de homens, com seu ar perverso destacava-se nos filmes.
Incorporadas por atrizes como Theda Bara, estas personagens se opunham as idealizadas
donzelas, encarnando a oposição anjo versus demônio tão cara as narrativas
tradicionais. Contudo, ás vezes o demônio se travestia de anjo, como Marlene
Dietrich e suas sedutoras meias, cinta liga, colete e salto alto humilhando o
ingênuo professor em O Anjo azul. Da
Lola à Lolita a sedução fatal tomou conta de diversos filmes.
O olhar cinematográfico
também foi marcado pelo caráter patriarcal em relação à mulher. O olhar
masculino atuou com um poder controlador sobre o discurso e o desejo. O cinema
produzido em diversos países articulou-se desta forma, mas é, sem dúvida, na
esfera hollywoodiana que ele teve maior
destaque e foi difundido mais amplamente. É nas décadas de 1930 e 1940 que os
mecanismos de controle exercem mais força. Nos anos 1950 tem início um
desmoronamento destes mecanismos, que pode ser percebido nas películas pelos
respingos de sexualidade, reconhecendo a força do perigo da sexualidade
feminina que emanava no meio social. Diversos filmes apresentam e reafirmam o
homem na sua superioridade econômica e social, outros destacam a imagem da
mulher como do fetiche e o filme Noir
destaca a sexualidade explícita, caracterizada como algo maligno que deve ser
destruído. Muitos filmes Noir, por
não apresentarem relações familiares “normais” em seus enredos acabam
destacando a mulher como portadora de uma postura independente. Todavia, estas
mulheres muitas vezes dependem dos personagens masculinos para sobreviver e
partilham do cinismo destes, o que transforma a independência num produto de
degradação moral.
Nos desvairados anos 1960,
estes mecanismos não funcionam mais. Muitos filmes apresentam cenas de estupro
onde não mais se encobre o uso do falo como meio de dominação. Mais do que uma
liberação, o que as imagens cinematográficas apresentam é uma resistência, pois
as mulheres buscam satisfazer-se e com isso levam os homens a confrontar-se com
seus medos, com a própria sexualidade feminina. Nestas diferentes décadas, os
signos hollywoodianos estavam
carregados da ideologia patriarcal que sustentava as estruturas sociais. Desse
modo, o cinema apresenta três instâncias de olhares masculinos: o olhar da câmera,
dos realizadores; o olhar do homem dentro da narrativa; e o olhar do espectador
masculino.
Ausente nesse olhar
dominador também estava a homossexualidade, em que pese a enorme influência de
gays e lésbicas nos bastidores e no funcionamento de Hollywood. O peso do
conservadorismo ainda se fará sentir por longos anos. A adaptação de Gata em teto de zinco quente para o
cinema apagou e suavizou as referências homossexuais de um dos personagens. De repente no último verão foi o
primeiro filme a ter presente um personagem gay, ainda que demarcado e visto
sobre o olhar patriarcal. Ultrapassar a fronteira dos gêneros para reafirmar a
dominação masculina foi um recurso empreendido em Quanto mais quente melhor, e mais tarde em Tootsie e Vítor ou Vitória?
Esse olhar se referendava de todos os lados. Neste contexto, ser um “homem
feminino” feria o “lado masculino” da sociedade.

Sofrendo pressão dos
setores conservadores da sociedade estadunidense, foi divulgado em 1930 e
implantado em 1934 o Código Hays, uma lista de diretrizes e posturas que
deveriam nortear as obras produzidas a partir de então. No âmbito dos filmes alternativos,
restritos ao circuito clandestino nos EUA, eram projetados os nudies, que exibiam cenas de nudez e de
sexo. Aqueles que exibiam cenas explícitas ficaram conhecidos como Stag movies. Posteriormente, quando
passaram a ser exibidos nas cabines de peeps
shows, foram batizados como Loops.
Também nesse período, a legalização do nudismo nos EUA gerou a produção de
diversos pseudo-documentários que exploravam a nudez dos seus “protagonistas”.
Após diversos filmes
realizados nas décadas de 1950 e 1960 (The
imoral Mr. Teas; Erotica; Heavenly Bodies; Lorna; Mudhoney) responsáveis
por tirar a nudez dos documentários, Russ Meyer ousou em Vixen (expressão empregada para designar a raposa fêmea na língua
inglesa) cuja protagonista tem um apetite sexual voraz, poupando de suas garras
somente um jovem negro. Uma ousada cena de lesbianismo, incesto, racismo e
política se misturam nesta obra explosiva de Meyer. Se o lado B estadunidense
começa a ousar em sua abordagem, a ponto de influenciar os grandes estúdios nos
anos 1970, do outro lado do Atlântico os hormônios saltavam na tela há bastante
tempo. As ondas transformadoras da estética carregavam consigo a verve da
transformação sexual que sacudiu a Europa do pós-guerra nos anos 1960. Filmes
franceses (Você e o veneno, Les yeux cernés, A Bela da tarde),
suecos (Amarelo, Uma história de amor sueca, Flossie,
Exponerad, Maid in Sweden, Thriller, a
cruel Picture, Persona, Vergonha), italianos (Blow-up, Malizia, Io, Emmanuelle), ingleses (As aventuras de Tom Jones, Um gosto de mel), sem esquecer dos
japoneses (A mulher inseto, O império dos
sentidos, A mulher de areia) expressavam de diversas formas esses elementos. Esta nova atitude
perante o sexo e o reexame dos costumes se solidifica como a principal herança
da juventude baby boom. O último
tango era dançado em Paris e a revolução era amanteigada (e com as unhas prudentemente
cortadas!).
Nos anos 1970 o velho
continente continuou ousando. Walerian Borowczyk inspirado na literatura
libertina realizou diversas películas com forte apelo erótico (Contos imorais, La bête) e Tinto Brass, profícuo cineasta italiano, transitou do
mundo antigo em Calígula, até o
Terceiro Reich com Saloon Kitty.
Realizou diversos títulos pitorescos até a atualidade: A chave, Miranda, Capricio, Snack Bar Budapeste, Todas as mulheres fazem, O homem que olha, Monella, a travessa, Transgredire,
Luxúria, Faça isto!, Monamour.
É nas décadas de 1960 e
1970 que os Exploitations e seus
filhos também chegam para abalar os alicerces da cultura cinematográfica. Eles
eram denominados desta forma por explorar temas controversos de forma
sensacionalista. O Nunexploitation
retratava a sexualidade dentro dos muros dos conventos, onde a oração e a religiosidade
associavam-se a sadomasoquismo, orgias e traumas. O realizador espanhol Jess
Franco foi um dos seus baluartes, com destaque para Cartas de amor de uma freira portuguesa. Do mestre espanhol também se
sobressaem: Santuário Mortal, O insaciável Marquês de Sade, Venus in
Furs e Vampyros Lesbos. O Naziexploitation levou o gênero ao
extremo com títulos como Calígula
reencarnado como Hitler e Ilsa, she
Wolf of SS. A partir da produtora inglesa Hammer, diversos filmes também
ousaram na temática vampiresca, como Condessa
Drácula, Vampyres, as filhas de Drácula, Escravas
do desejo, Carmilla chegando até
a série True Blood.

Mas, se nos EUA, a femme fatale menos demoníaca e mais
humanizada que suas antecessoras vamps
perdiam espaço, as pin-ups (Marylin
Monroe como símbolo máximo em O pecado
mora ao lado) com sua ingenuidade provocante ganhavam espaço. Logo, A primeira noite de um homem provocaria
escândalo, Barbarella enlouqueceria
os espectadores com a máquina do amor e sexo, e o erotismo, ainda que soft se
consolidaria com Emmanuelle.
A evolução do cinema e
sua abordagem da sexualidade trouxe à tona a questão teórica de como
diferenciar na narrativa fílmica onde termina o erotismo e inicia a
pornografia. O cineasta gaúcho Carlos Gerbase apresenta diversas tentativas de
classificação, todas falhas em sua opinião. A distinção Plástica qualifica um
filme de acordo com a visualização da genitália: no pornográfico tudo é
mostrado enquanto no erótico ela é “escondida”. O viés psicológico destaca o
pornográfico pela representação do ato sexual como algo mecânico, enquanto no
erótico encontra-se sentimentos presentes na ação. A abordagem Intuitiva apela
para o elemento subjetivo e simplificador. O viés estético procura classificar
o que seria de bom gosto, para uma obra erótica e de mau gosto para a
pornográfica. A saída, para o cineasta, estaria em pensar cada filme a partir
de sua postura, sendo que esta pode ser conformada ou libertária.
Nos EUA dos anos 1970
quando diversos filmes recheados com cenas de sexo explícito ocuparam espaço comercial
vigoroso, o código Hays já havia sido abandonado e no lugar reinava a
classificação da MPAA, que enquadrava estes filmes como X-Rating. Contudo,
estas obras se diferenciavam qualitativamente daquelas produzidas nos dias
atuais. Havia a preocupação com um argumento e roteiro e os protagonistas
pareciam “saídos da vida real” e não de uma fábrica de bonecas infláveis.
Mostrando as peripécias de uma mulher que buscava respostas para sua insatisfação
sexual, Garganta profunda pode ser
até ser classificado como uma comédia. Este filme foi responsável por retirar o
cinema erótico do gueto e tornou-o um produto de massa. Com um criativo
argumento (mulher virgem se suicida e no purgatório faz um pacto com o diabo
para que este encarne em seu corpo e usufruam diversas experiências no retorno a
terra) O diabo na carne de Miss Jones iniciava
com um extenso monólogo da personagem em frente ao espelho. Atrás da porta verde aderia a onda flower power de uma grande orgia quase
ritualística. Café Flash - gozos atômicos
retratava um futuro pós-apocalíptico onde os seres humanos não sentiam mais
prazer sexual. Na esteira destas obras seus realizadores eram alçados ao pantheon dos grandes cineastas: Anthony
Spinelli, Alex DeRenzy, John Leslie e Gerard Damiano com certeza ainda
encontram admiradores ao redor do mundo.

Na exaltação dessa
abertura o “recuo” moralista e autorepressivo foi impulsionado pela
proliferação do VHS: as tiranias da intimidade ressurgiam das cinzas, mas não
sem uma mudança estética nos seus produtos. A estruturação do porn valley e a criação de um star system próprio proliferou a
quantidades de filmes produzidos, mas que abandonavam a adoção de um argumento,
de um roteiro e a exibição em salas de cinema. Passou-se a produzir cenas
juntadas e vendidas quase que metaforicamente como “filmes” para consumo
doméstico. Todo esse contexto foi magnificamente retratado em Boogie nights. Uma visão europeia pode
ser vista em O pornógrafo. Diversas
produções atuais – no rastro dos realitys
shows, caracterizadas como gonzo,
buscam retratar o sexo como um registro amador, apontando para a veracidade da
cena filmada. Dificuldade inerente a toda cena sexual, cabe perguntar como é
possível traspor uma experiência tátil para a película? Como caracterizar esta
realidade? Lembrando a crítica de André Bazin, a presença de uma cena real de
sexo seria igual à realização de uma cena de morte de um tiroteio. E referenda:
“O cinema pode dizer tudo, mas não de forma alguma tudo mostrar”. Questões
complexas e ainda presentes.
Enquanto isso, nas
terras tupiniquins, após alguns filmes reflexivos como Noite vazia e Os cafajestes, sob os olhos da ditadura
gestou-se a pornochanchada e o cinema marginal, produzindo uma variedade de
títulos com qualidades variadas. Gisele
e diversos títulos de Carlos Reichembach dividem o cenário com peculiaridades
como As emoções sexuais de um jegue e
Experiências sexuais de um cavalo (não
esquecendo o famoso cachorro de 24 horas
de sexo explícito). A retomada no início dos anos 1990 trouxe uma esperança
para produções mais ousadas que se perderam no predomínio de obras com estética
novelesca, salvo aquelas mais independentes como Um copo de cólera e Entre
lençóis.
Os
coloridos anos 1980 consagraram diversas aventuras adolescentes (Porkys, O último americano virgem) avós
e (talvez) um pouco menos grotescos dos contemporâneos American Pie. Curiosamente alguns filmes atuais apresentam a
inserção da pornografia como possibilidade de sobrevivência (Show de vizinha, Pagando bem que mal tem), e até ironizam a liberdade da juventude. A good old fashioned orgy mostra um
grupo de jovens dispostos a realizar uma orgia antes da venda da casa de praia
de um deles. Como eles não sabem como executar a empreitada partem em busca dos
conselhos de um morador experiente para ensinar-lhes como se faz uma orgia! Mas
a década que encerrou o curto século XX ainda mostraria Corpos ardentes, e destacaria que O
amor não tem sexo.
A estética yuppie e pós-moderna
fez escola com Sexo, mentiras e videotape
e 9 semanas e meia de amor. A
manteiga de Romy Schneider cedia lugar para o mel, chantilly e os morangos de
Kim Baysinger. Ainda nos anos 1990 surgia um novo mito pelas mãos de um
cineasta que nunca havia esquecido “daquilo”. Instinto Selvagem de Paul Verhoven ousou com Sharon Stone
protagonizando uma longa cena de sexo com Michel Douglas e a breve cruzada de
pernas que incendiaram uma década meio morna. Madonna tentava provocar com seu Corpo em evidência, Demi Moore tirava a
roupa em Strip-tease e processava em Assédio sexual.

No vizinho Canadá o
sexo conectava-se a elementos fantásticos e bizarros. David
Cronenberg realizou uma série de filmes que misturavam terror, sexo e criaturas
bizarras. Em Calafrios parasitas
criados em laboratório para liberar a sexualidade humana acabam sendo soltos
num prédio originando diversos bacanais entre seus habitantes. Os
filhos do medo narra a história de uma mulher que dá a luz a mutantes
assassinos, materializando seu ódio contra humanos. Enraivecida na fúria do sexo é considerado uma obra que antecipa a
presença da AIDS ao retratar uma mulher que sofre uma cirurgia plástica com uma
experimental restauração de tecidos. Como resultado surge uma sequela
inesperada: da axila da moça nasce um órgão alimentador que suga o sangue de
suas vítimas, seduzidas pelo charme da mulher, transmitindo o contágio para o
infectado que após um tempo acaba morrendo. O mórbido e o fetiche ressurgem com
força total no polêmico Crash – estranhos
prazeres. Denys Arcand, já famoso por O declínio do império americano realiza Amor e restos humanos e Atom
Egoyam dirige Exótica.
Do oriente Zhang Yimou
retratou de forma ímpar a repressão nas obras Amor e sedução, Lanternas
Vermelhas e Adeus a minha concubina.
Na França, não esquecendo a política o veterano Luis Malle lança Perdas e danos. Na Inglaterra A prostituta
de Ken Russel (que já havia polemizado em Mulheres
apaixonadas) é taxado de pornográfico em alguns países. A Espanha
pós-franquista apresenta um Almodóvar retirando a poeira do armário e
provocando as convenções sociais com Ata-me
e Kika. Na Inglaterra Peter Grenaway usa um tom de escatologia
em O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o
amante, 8 e ½ mulheres e O livro de
cabeceira. Diversos temas também seriam explorados em filmes interessantes:
Ovos de ouro, Oleanna, Traídos pelo desejo,
Encaixotando Helena, Orquídea selvagem, Gosto amargo da
paixão e De olhos bem fechados.
O Noir moderno trouxe à baila as mulheres fatais revisitando os
tempos antigos (Los Angeles – cidade
proibida; Dália negra; O homem que não estava lá) ou com
releituras como na tele série Femme
fatales. O filme homônimo de Brian de Palma (que já havia realizados
experiências com Dublê de corpo) apresentou
a nova loira fatal Rebecca Romijn Stamos.
Nos
dias atuais a questão da fronteira entre o pornográfico e o não pornográfico
parece ter voltado à tona. A proliferação de produções em diferentes formatos e
a coprodução entre diversos países dinamizaram variadas abordagens. De Transamérica e Tudo sobre minha mãe até 9
canções o cinema experimentou um pouco de tudo. A forte presença feminista na
contemporaneidade pode ter contribuído para uma leva de filmes lésbicos ao
redor do mundo: Lírios de aranha em
Taiwan, Yes or no na Tailândia, Eternal no Canadá, Tudo pode acontecer no Chile, Oubler
Chayenne na França, Elena Undone,
Assunto de meninas, Meninas não choram, Desejo proibido nos EUA, Almas
gêmeas na Nova Zelândia, Um quarto em
Roma na Espanha, entre outros. Uma leva de filmes destacando a relação
entre um casal filmada praticamente em um único cenário (En la cama, Um quarto em Roma)
mostra que a “discussão da relação” ainda vale para a estética cinematográfica.
Ainda sobre as relações e da dificuldade que as pessoas enfrentam para se
conectar uma com as outras Shame apresenta
uma interessante abordagem. O lado sentimental masculino ganha destaque em O homem que ama, que talvez peque pela
verossimilhança, uma vez que o personagem principal não demostra interesse pela
esposa, interpretada por Monica Bellucci!
Nestes
mais de cem anos de cinema, a relação de Clio, Eros e a sétima arte é múltipla
e tem sua história!
Foucault
destaca que a sexualidade foi contida no período vitoriano. Antes disso, as
práticas não procuravam o segredo e uma franqueza demarcava os atos. “Nas
noites monótonas da burguesia vitoriana” a sexualidade muda-se para dentro de
casa, confiscada pela família conjugal, praticamente ficando restrita ao quarto
dos pais. O decoro das atitudes trata de esconder o corpo e a decência
empregada nas palavras limpa os discursos. Todo o “resto” encorpava os lugares
de tolerância. Produto do século XVIII, a scientia
sexualis configura a vontade de saber, oposta a ars erótica que demarcava uma verdade extraída do prazer, encarada
como prática e recolhida como experiência. Esta arte predizia o domínio do
corpo e o gozo sem limites, muito diferente das práticas do XIX, onde o sexo é
reinscrito no sistema da lei. Do sangue como referência do mecanismo de poder e
do funcionamento da ordem dos signos passou-se para o poder do sexo. Os
mecanismos de poder agora se dirigem ao corpo.
Num
espaço de 150 anos os diferentes discursos sobre a sexualidade buscaram falar
sobre seu próprio silencio, detalhar o que não se diz, denunciando os poderes
que exerce. A interdição do sexo não se configura uma ilusão, a verdadeira
ilusão é fazer desta interdição o elemento central. Em suma: o poder está no
discurso. Nesta profusão de discursos sobre sexo iniciado no XVIII o cinema
demarca seu ápice. Suas representações são filhas da repressão, mas também se
opõem, desvinculam e a questionam. É neste espaço que os discursos se colocam
em movimento, se renovam, assumem outra perspectiva. Falar sobre sexo e sobre
sua repressão constitui-se uma transgressão, inserindo seu ato fora do alcance
do poder.
Dessa forma o termo sexualidade
agrupa diversos fenômenos de comportamento, sensações, desejos, instintos,
paixões e claro, sexo! Não cabe isolar este termo no plano dos conceitos, pois
ele é uma figura histórica real! História, Cinema e Sexualidade. Neste evento Clio,
musa da História se encontra com Eros, o mais belos dos deuses imortais, no
escurinho do cinema, sétima das artes. Desse ménage à trois propomos um ciclo de cinema que perpasse, questione,
reflita e contribua para a análise dessa visão histórica-cinematográfica. Como
um bom ménage nenhum dos envolvidos
deve aproveitar menos que o outro, o prazer deve ser total! Mas neste caso Clio
é a dona do quarto e diz que hora tem que acabar ou começar a festa! Da
antiguidade a contemporaneidade diversos enfoques afloram nos filmes
escolhidos. Sexo, amor, pecado, desejo, sensações, comportamentos, repressão e transgressão,
entendida como um deslocamento, quebra de expectativas, o cruzamento de uma
fronteira. Procuraremos não adotar a fronteira do pornográfico e do erótico, o
primeiro visto como a representação explícita da sexualidade, a carnalidade sem
amor físico; e o segundo tomado pela representação sugerida, uma metáfora. Buscar-se-á
refletir sobre conceitos, práticas e discursos dentro dos seus marcos e
contextos fazendo-os questionar e analisar as práticas atuais e quem sabe
futuras. Assim, títulos conhecidos ficaram de fora justamente pela grande
exposição e estudo e outros “menos óbvios” foram incorporados para tentar agregar
outro olhar. Transpondo os liames da Sala Redenção, a ferramenta do blog também
permitirá abordagens diferenciadas tanto nas temáticas históricas como de
outros filmes e mídias, compondo um amplo suporte para nosso evento.
A
partir de agosto você é nosso convidado para uma aventura sensual e histórica!
Venha
para a Sala Redenção!
Dicas bibliográficas
Michel Foucault
História da Sexualidade
Volume 1 A vontade do saber
Volume 2 O uso dos prazeres
Volume 3 O cuidado de si
Anthony Giddens
A transformação da intimidade:
sexualidade, amor e erotismo nas
sociedades modernas
Richard Sennet
O declínio do homem público:
as tiranias da intimidade
Linda Williams
HardCore:
power,
pleasure, and the “frenzy of the visible”
Paulo Menezes
À meia-luz:
Cinema e Sexualidade nos anos 70
César Almeida
O cemitério perdido dos filmes B
William J. Mann
Bastidores de Hollywood:
a influência de gays e lésbicas no
cinema. 1910-1969
Douglas Keesey e Paul Duncan
Cinema erótico
Ann Kaplan
A mulher e o cinema:
os dois lados da câmera